Bendita seja a narrativa, a palavra

Os tempos de polarização, acirrados imbróglios políticos, as tensões pandêmicas nos trouxeram uma CPI, a da COVID, mais visível, discutida e questionada que as demais, tal CPI nos evidenciou um termo comum usado ora lá, ora cá, o termo “narrativa”. Tristemente colocado em contextos nada gloriosos, diferentemente da linha histórica do vocábulo.

Narrativa, somente para lembrar o que nos diziam o tio e a tia, durante o período escolar, basicamente, é o desenrolar de uma história. Essa com um transcorrer temporal, início, auge e fim. Isso é a boa e verdadeira narrativa. É naturalmente saber harmonizar o narrador, personagem, tempo, espaço e enredo. Longe do didatismo, é palavra bela, sagrada, instrumento de pessoas das letras e poetas.

Poetas que tristemente devem contemplar a palavra “narrativa” ganhar cada vez mais a pecha de inverdades dentro de acusações recíprocas de entes políticos. A CPI, em seu enveredamento, e tudo que a ela tange, vem usando à exaustão o citado termo como sinônimo de uma mentira criada pelo lado oposto. Naturalmente se associa que alguém ao criar uma mentira para benefício próprio ou de outrem esteja “cometendo” uma narrativa. Um pecado linguístico contra o verbete.

Há alguns meses, ao se falar em narrativas, as associações seriam dirigidas de forma às epopeias de Luis Vaz de Camões, às histórias de Monteiro Lobato, às inconfundíveis narrações de Machado de Assis, entre outras. Lembremos que também a belíssima oração eucarística feita pelo padre antes da eucaristia católica, que relembra as ações e palavras de Cristo, do início ao fim, durante sua última ceia com seu apostolado, é uma perfeita narração. Estaríamos então manchando a memória dessa palavra?

Por ironia, o tipo de texto usado por essência quando se faz necessário convencer um interlocutor, provar algo, mesmo que não seja verdade, é outro; o argumentativo. Caso a tendência permaneça e evolua ainda mais essa carga semântica negativa sobre tal palavra, ainda veremos discussões como as que ocorrem em câmaras pelo país afora com novos formatos:

_ Desculpe, mas vossa excelência mente!

_ Quem mente é vossa excelência, com sua narrativa.

_ Narrativa, não, você é que é um narrador.

_ Eu exijo respeito, narrador é mãe de vossa excelência.

Ó, destino indigno e vil! Diria em apóstrofe, Castro Alves. Como poderia a palavra que representa a glória de tantos, tornar-se uma ofensa? Pensariam e se rebateriam em seus túmulos grandes narradores da Literatura e História brasileiras. Outros tantos regozijariam-se direto do além: Ainda bem que não mais vivemos para presenciar tal pataquada.

Publicado por Professor Reinaldo Santos

Professor de Língua Portuguesa, Gestor Comercial. Especialista em ensino de Português e Literatura. Promove organização para comunicação e escrita eficientes no meio corporativo. Escreve crônicas e contos para esse blog.

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