O ceifador

Lá pelos idos do século XX, pelos profundos rincões das Minas Gerais, de pomposos proprietários, muitas nababescas fazendas existiam. Ainda pouco divididas com herdeiros, tais propriedades tinham dimensões, muitas vezes, desconhecidas pelos próprios donos. Havia também, dadas as proporções, muitos peões, carreiros, boiadeiros e demais nomenclaturas do gênero. Tudo em generosos números.

Era comum em tais épocas que grupos desses funcionários se ajuntassem para fazer pequenas comitivas pelos interiores da fazenda. Tais feitas podiam durar semanas ou meses. Tinham como missão reconhecer limites territoriais, resgatar animais desgarrados que por vezes se perdiam mata adentro e acabavam até procriando nos espaços afastados da sede.

Em uma comitiva, foram designados amigos já habituados nessa lida, entre eles estava o Agenor. Dessa vez sairiam em busca de um peão da fazenda que havia se perdido de uma comitiva que chegara no dia anterior, após trinta dias de missão, para tal feita, foram escalados os mais experientes. Como era serviço sem data prevista, eles levavam de tudo em tralhas carregas por mulas e pequenos cavalos, os mais mansos da fazenda. Tinham de farinha a e rapadura a galinhas vivas para a temporada.

Na reunião de saída, chegaram à conclusão que o jovem peão deveria ter se distraído e passado para outros sentidos da mata, ainda pouco conhecido por eles. Assim para lá rumariam. Era trabalho duro, pois tal quais os bandeirantes os caminhos precisavam ser abertos por eles mata adentro.

No primeiro dia, antes do sol chegar à metade do céu, já haviam encontrado uma novilha que havia se distanciado, fizerem um cercado, guardaram-na com alimento e água para ser resgatada na volta. Ao pôr do sol, viram-se diante de um imenso jatobá-do-serrado com uma copa bem definida.

_ Agenor, não acha por bem já montar por cá nosso acampamento antes que caia a noite? Questionou ao mais experiente, o Eurico.

Agenor era homem que andava no escuro, era conhecido por essa habilidade, naquele tempo e por aquelas bandas, onde não se via vestígio de luz elétrica nos céus por quilômetros circunferentes era predicado apreciado por empregadores das fazendas. Por lá, algumas noites eram pretas, literalmente. Em épocas que faltava a lua no céu ou em dias nublados e não se via um palmo diante do nariz, ele parecia caminhar por coordenadas, igual a um morcego.

Mesmo assim, por estar com parceiros e tralhas, resolveu concordar:

_Deveras, desfaçam as tralhas dos animais e vamos acampar por aqui.

                Mal começaram as tarefas, um deles, o Heitor, demonstrando visível cansaço, deitou-se de barriga para cima debaixo do jatobazeiro, relaxou, fechou os olhos, sentiu a brisa tocar seu rosto e os raios do poente lhe acariciarem a face através dos galhos. Tão logo os abriu assustou os companheiros ao gritar estarrecido:

                _ Valha-nos Jesus, Nossa Senhora, isso não é coisa de Deus.

Assustados, os companheiros não ouviram mais dele palavra alguma, apenas o viram, esbranquiçado, apontar para a copa da árvore. De pé, o poente ofuscava os olhos que buscavam inquietantes algo, mas puderam ver os pés de um homem pendurado na árvore.

_ Ele se matou?

_ Evidente que sim, ele estava sozinho.

_ Nossa comitiva terminou mais cedo que esperávamos_ disse Agenor em tom conciliador.

Por mais que tal possibilidade fosse prevista para todos, nenhum havia se preparado para tal ou sabiam como proceder diante do que viam. Rodearam a árvore, analisaram e perceberem que o pobre homem estava morto há dias. Já começara a se decompor.

_ Não há como levarmos de volta, vamos enterrá-lo aqui.

_ Aqui mesmo?

_Sim.

_ Como o desceremos de lá?

Para as dúvidas, uma resposta simples:

Não o desceremos, vamos cavar a cova debaixo dele, depois subimos e cortamos a corda, resumiu o Agenor.

_ Eu não subo lá.

_ Eu muito menos _ discutiam Heitor e Eurico.

                Incrédulo com o que via, balançando a cabeça, Agenor diz, quase em tom de oração:

                _ Vamos cavar, depois resolvemos isso.

                Como era alta a copa, precisaram furar uma cova extensa, bem larga. Levou tempo. Ao terminarem a noite se anunciava. Dois deles, resmungando algo incompreensível, sentaram-se sobre os cabos das enxadas, enquanto Agenor tomou em suas mãos uma foice, afastou-se, cravou-a ao solo, apoiou-se em seu cabo, ajoelhou e apostrofou:

                _ Senhor Deus, embora não autorizado e indigno de ser seu emissário, não podendo encomendar a ti a alma desse pobre desgraçado, que nem mesmo conheço o nome, suplico que o receba em sua morada, dai-lhe a paz que na terra para ele faltara. Recebe teu filho, senhor, mesmo que a fé lhe tenha andado distante, que a sua glória tenha lhe faltado, agora à morada eterna possa regressar, Amém.

                Levantou-se, olhou para o alto e lançou sua foice rodando em direção à corda. Atônitos os companheiros viram o corpo cair dentro do buraco no solo.

                _ Enterrem-no. Vou procurar minha foice. Disse frio como a noite que chegava.

Enquanto cuidavam de fechar o buraco, procurou, procurou, mas a foice não foi mais vista. Era uma foice de estimação cunhada na bigorna e presenteada por seu padrinho, já havia enjeitado M$ 500,00 (quinhentos Mirréis) na mesma tão grande era seu apreço por ela. Não demonstrando sua decepção questionou aos companheiros:

                _Pronto? Nossa missão aqui terminou, vamos embora, mesmo durante à noite, não é bom nem prudente que permaneçamos aqui.

                Rumaram noite adentro, pela escuridão, Agenor ditava a marcha e a peonada atrás levando toda a tralha e puxando a novilha encontrada. Durante o percurso, por toda a noite, não disseram uma só palavra. No silêncio, velavam a alma daquele infeliz que sequer sabiam o nome ou conheceram sua vida.

                Pela manhã, animais postos em seus devidos lugares, rumaram, cada um em direção a seus destinos. Ao chegar em casa, Agenor já encontrou sua mãe no trato das galinhas no terreiro.

                _Sua bênção, mãe.

                _Deus te abençoe, voltou rápido dessa vez.

                _Sim, mamãe, conseguimos terminar nosso trabalho ontem.

                _ Ah sim, seu amigo falou-me, passou aqui logo cedo.

                Sem compreender do que lhe falava a mãe, a questiona, arrepiado:

                _Que amigo é esse, mãe.

                _Não sei, nunca o tinha visto, um rapaz jovem, elegante e muito bem vestido. Disse que se chamava “Azeitador” ou coisa assim, que você o ajudou em uma empreitada e veio devolver a sua foice.

                Ao lado da porta, próximo à bancada do fogão, viu sua foice escorada. Olhou-a por três segundos e perguntou:

                _ Mãe, já tem café pronto?

Prof. Reinaldo Santos

Publicado por Professor Reinaldo Santos

Professor de Língua Portuguesa, Gestor Comercial. Especialista em ensino de Português e Literatura. Promove organização para comunicação e escrita eficientes no meio corporativo. Escreve crônicas e contos para esse blog.

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