Prazer em conhecer, Agenor

Agenor era, antes de tudo, um forte. Não confunda com as referências feitas por Euclides da Cunha. Era sim, um sertanejo matuto e sabido, detentor de conhecimentos práticos e empíricos. Pertencente a uma família de iguais predicados, tudo na mesma linha dos heróis citados pelo autor de Os Sertões. Era forte no sentido lógico da palavra, força física. Também não assimilemos à imagem frágil de músculos condicionados em academias. Sua força estava em nervos de touro reprodutor, nunca perdera uma briga, garantia ele.

                Era herdeiro de conhecimentos transmitidos por gerações, provindos de seus ascendentes; arte da pesca, guerrilha, salvamentos, produção rural (inclusive da boa cachaça de engenho, com degustação), medicamentos naturais e sobretudo no tangia o trato com animais, qualquer tipo deles.

                Apenas uma ressalva sua sinceridade o obrigava a fazer: não se dava bem com cães ou gatos. Filosoficamente apontava as razões:

                _ Nunca me agradaram os gatos, são bichos tinhosos, sim, tinhosos. Fizeram xixi no copo para Jesus Cristo tomar alegando que fosse água. Tanto é verdade que quando alguém passa dessa para outra, sem ter prestado aqui a devida retidão, antes de atravessar os portões divinos, elas obrigatoriamente passam pelo pelos corredores do purgatório. Lá são flageladas até pagarem seus pecados. E os gatos, dado sua tinhosidade, foram escalados para tal empresa. Números impensáveis de gatos arranham o arrependido até que se chegue ao outro lado. Tantos forem os pecados, serão os arranhões dos atleticanos gatos.

                Já os cães são animais astutos, nunca se sabe o que eles querem. Melhores amigos? Nem nada. Pela luz que brilha no céu, são dissimulados como damas apaixonadas e suspirantes em porta de boate. Saio-me melhor enfrentando um boi bravo, uma manada deles. São sinceros, sabe-se o que querem apenas olhando sua postura. Com eles eu me entendo, mas de cães eu tenho medo. Teorizava o matuto sertanejo.

                A verdade é que Agenor era homem antigo, até mesmo com os filhos falava apenas com o olhar. Mandava-os irem para a cama, trabalhar, bem como saírem da sala quando chegava visita e a conversa era de adultos, tudo com um só “rabo de olho”. Mas com os caninos era tudo diferente.

                E justamente com um cão, ocorrera a única e homérica jornada de Agenor sem uma postura honrosa:

                Nem mesmo deram as seis badaladas na torre da igreja de Santo Antônio, o homem sem medo já estava há uma puxada boa de terra caminho à lavoura de feijão, outra de suas especialidades. Caminho deserto e há uma boa distância do destino, um chamado da natureza sequer era um problema. Isso não fosse ver materializado ali, feito algo caído do céu ou subido do inferno, um totó focinho de santo e proporções dantescas.

                Aparentando não estar naquela situação, recompôs-se, mesmo antes do necessário, retomou sua marcha natural. Afinal um cãozão com cara de anjo não representar perigo. Ao dar o segundo passo, como se ordenado por controle remoto, o cão avançou com rapidez e fúria comparadas apenas a uma adolescente chamada de gorda após 15 dias comendo couve. Um Chuck Norris com quatro patas e sedento de sangue, certamente não era desse mundo.

                Dado o costumeiro reflexo e um pouco de esforço, o animal foi contido com as duas mãos atarrachadas ao pescoço, a poucos centímetros do rosto. Era mesmo possível sentir o rosnar e o bafo raivoso aquecendo o rosto judiado pelo frio da manhã. O cão, por ser verdadeiramente grande (uma mescla de Rottweiler, Dog Alemão e Fila Brasileiro), mesmo suspenso no ar, às vezes conseguia, se rebatendo, tocar os pés no chão, chegando a quase derrubar Agenor ao solo. Ele sabia que isso seria sua passagem de encontro aos gatos. Afinal, nunca fora um santo. O que o fazia erguer o bicho cada vez mais alto. E se via em um conflito:

                _  Se eu soltá-lo, ele certamente me matará. Mesmo que eu chegue à roça não terei como pegar a enxada para me defender. Só me resta chegar à casa do Tõe.

                Sábia decisão, Antônio era homem sisudo, de poucas palavras, quase tão forte quanto o irmão.

                Mesmo estando a casa a nada menos que uma légua, o destemido seguiu a passos rápidos a segurar firme seu único medo, com as mãos cada vez mais firmes e molhadas pela baba do animal apocalíptico animal. Diante do terreirão de café, se sentiu aliviado:

                Ô, Tõe, Ô, Tõe, venha aqui rápido. Pegue um pau ou uma corda para dar um jeito nesse cachorro.

                Antônio, apenas olhando pela janela de pau, com cara de poucos amigos:

                _ Largue de ser besta, Agenor, olhe a língua para fora, e a rouxidão. Esse bicho está morto, seu ignorante.

                O amor entre irmãos também e caso de lindas histórias.

                Prof. Reinaldo Santos

Publicado por Professor Reinaldo Santos

Professor de Língua Portuguesa, Gestor Comercial. Especialista em ensino de Português e Literatura. Promove organização para comunicação e escrita eficientes no meio corporativo. Escreve crônicas e contos para esse blog.

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