Se não houver caridade, nada seremos

Agenor, embora fosse homem de pouca formação escolar, era muito conhecido e sempre queriam-no ouvi-lo por onde passava. E tal qual seu ídolo maior, ninguém menos que Jesus Cristo, sempre falava em parábolas. Muitas vezes instauravam-se as dúvidas se suas histórias eram reflexos de suas vivências, de pessoas que conheceu ou se criação da mente, ou ainda um misto dos dois.

Pois bem, certa vez ele falava da importância de se doar, às vezes se doar mais que receber, e nunca apenas esperar o que poderia vir como doação. (Dizia ele sobre pessoas ingratas: só querem o “venha a nós” e esquecem de “o vosso reino”). Nessa ocasião, sentou-se e rodeado, contou a história de uma velha que era muito astuta, esperta, fazia-se de coitada e costumeiramente terminava por receber algo por suas atuações dramáticas.

Ela era, na definição de Agenor, sovina, mão de porco, munheca de samambaia, avarenta, mão de vaca, cauila, olho grande e alguns adjetivos mais. Ganhava muito e nunca doava, tudo escondia e muitas vezes o que tinha se perdia, pois sempre guardava tudo para não oferecer nada a quem por ventura se achegasse em sua casa. Fazia-se de triste, desprovida para amolecer os corações alheios com o intuito de sempre ganhar mais. E ganhar sem necessidade verdadeira. Nas palavras da parábola, isso era algo divinamente inaceitável, que nem mesmo o tinhoso aprovava.

E olha que pelos interiores das Minas Gerais, durante o século passado, o encardido era algo de que muito se tinha medo, imagine-se então como era degradante fazer algo que o costa-oca achava inviável.

Pois bem, tal senhora vivia em um espaço cedido por um fazendeiro, bem no final de uma extensa pradaria. Por vezes o tal fazendeiro por lá passava, visto a dona morar sozinha. Invariavelmente, durante as visitas ela escondia tudo que tinha, mas no caso dele, oferecia almoço, mas reclamava estar faltando algo. Certa vez ao chegar na casa, a velha já grita:

_ Vamos comer arroz branco comigo, filho!

_ Por que arroz branco, dona Maria?

_ É que falta o feijão, e o cobre para comprar está difícil.

Comovido, o senhor das terras disse:

_ Passe então na sede, temos feijão lá e a daremos o que precisa.

Mal o fazendeiro saía, tomava ela o rumo da sede com o bornal ao lado. Um dia, faltava feijão, no outro, café, arroz… e por aí afora. A verdade é que estava tudo amoitado, quando ela via ao longe alguém se aproximar.

Como comentado na parábola, nem mesmo o coisa-ruim concordava. Assim um dia, ele, aquele que todos evitavam falar o nome, puto da vida, resolveu dar uma lição na espertinha.

Era comum, na época, matarem um porco e as partes serem divididas, vendidas entre várias famílias, pois devido à ausência de refrigeração, era necessário recorrer a antigas técnicas de preservação limitada. Como é o caso do ressecamento, da fritura e conserva em banha, etc. Pois bem, ela tinha sido convidada para uma dessas partilhas e interessou-se em uma parte dos torresmos do porco. Recebida sua parte, passou a semana a ressecá-los, fritá-los. Terminados os trabalhos, uma parte foi para a lata com banha, outra para um saco, por lá conhecido como saco de Mauá.

Instintivamente, prevendo alguma visita, escondeu-os cuidadosamente entre os caibros e linha do telhado da casa. Tudo seguro, os dias se passaram.

Era início de janeiro, época em que as congadeiros saíam pelos confins, com as folias de reis. As comitivas visitavam casas com as cantorias próprias para a ocasião, e pediam, água, comida e doações relembrando a jornada dos Santos Reis que foram ao encontro do Menino Jesus. Por uma casualidade, pela primeira vez apareceram naquela pradaria.

Sob os olhos atentos da quieta senhora, fizeram a tradicional festa, se apresentaram, sorriram-se, depois procuraram sombra e esperavam por água e se possível a comida. Como nada lhes foi dito, um deles questionou se havia comida para ser oferecida, visto a longa caminhada.

Já acostumada a negar com convincentes histórias, ela desceu tranquila o primeiro degrau da porta em direção ao congado, quando uma voz de dentro da casa disse em alto, forte e límpido som:

_ Podem entrar, tem comida para todos.

Olharam assustados para dentro da casa e viram o sete-peles sentado sobre a linha de madeira do telhado, e jogando no chão as latas e sacos de torresmos.

_Entrem, comam, bebam e se fartem.

O grupo de músicos todos se foram em trote forte e sumiram-se nas linhas do prado. A velha que lá ficou, não se teve mais notícias dela. A casa ficou aberta e com os sacos e latas jogadas no chão. E até então, quem quisesse poderia se aventurar e visitar a casa que, mesmo em ruínas, ainda está com o saco e as latas jogadas no chão. Garantia o Agenor.

Publicado por Professor Reinaldo Santos

Professor de Língua Portuguesa, Gestor Comercial. Especialista em ensino de Português e Literatura. Promove organização para comunicação e escrita eficientes no meio corporativo. Escreve crônicas e contos para esse blog.

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