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Prazer em conhecer, Agenor

Agenor era, antes de tudo, um forte. Não confunda com as referências feitas por Euclides da Cunha. Era sim, um sertanejo matuto e sabido, detentor de conhecimentos práticos e empíricos. Pertencente a uma família de iguais predicados, tudo na mesma linha dos heróis citados pelo autor de Os Sertões. Era forte no sentido lógico da palavra, força física. Também não assimilemos à imagem frágil de músculos condicionados em academias. Sua força estava em nervos de touro reprodutor, nunca perdera uma briga, garantia ele.

                Era herdeiro de conhecimentos transmitidos por gerações, provindos de seus ascendentes; arte da pesca, guerrilha, salvamentos, produção rural (inclusive da boa cachaça de engenho, com degustação), medicamentos naturais e sobretudo no tangia o trato com animais, qualquer tipo deles.

                Apenas uma ressalva sua sinceridade o obrigava a fazer: não se dava bem com cães ou gatos. Filosoficamente apontava as razões:

                _ Nunca me agradaram os gatos, são bichos tinhosos, sim, tinhosos. Fizeram xixi no copo para Jesus Cristo tomar alegando que fosse água. Tanto é verdade que quando alguém passa dessa para outra, sem ter prestado aqui a devida retidão, antes de atravessar os portões divinos, elas obrigatoriamente passam pelo pelos corredores do purgatório. Lá são flageladas até pagarem seus pecados. E os gatos, dado sua tinhosidade, foram escalados para tal empresa. Números impensáveis de gatos arranham o arrependido até que se chegue ao outro lado. Tantos forem os pecados, serão os arranhões dos atleticanos gatos.

                Já os cães são animais astutos, nunca se sabe o que eles querem. Melhores amigos? Nem nada. Pela luz que brilha no céu, são dissimulados como damas apaixonadas e suspirantes em porta de boate. Saio-me melhor enfrentando um boi bravo, uma manada deles. São sinceros, sabe-se o que querem apenas olhando sua postura. Com eles eu me entendo, mas de cães eu tenho medo. Teorizava o matuto sertanejo.

                A verdade é que Agenor era homem antigo, até mesmo com os filhos falava apenas com o olhar. Mandava-os irem para a cama, trabalhar, bem como saírem da sala quando chegava visita e a conversa era de adultos, tudo com um só “rabo de olho”. Mas com os caninos era tudo diferente.

                E justamente com um cão, ocorrera a única e homérica jornada de Agenor sem uma postura honrosa:

                Nem mesmo deram as seis badaladas na torre da igreja de Santo Antônio, o homem sem medo já estava há uma puxada boa de terra caminho à lavoura de feijão, outra de suas especialidades. Caminho deserto e há uma boa distância do destino, um chamado da natureza sequer era um problema. Isso não fosse ver materializado ali, feito algo caído do céu ou subido do inferno, um totó focinho de santo e proporções dantescas.

                Aparentando não estar naquela situação, recompôs-se, mesmo antes do necessário, retomou sua marcha natural. Afinal um cãozão com cara de anjo não representar perigo. Ao dar o segundo passo, como se ordenado por controle remoto, o cão avançou com rapidez e fúria comparadas apenas a uma adolescente chamada de gorda após 15 dias comendo couve. Um Chuck Norris com quatro patas e sedento de sangue, certamente não era desse mundo.

                Dado o costumeiro reflexo e um pouco de esforço, o animal foi contido com as duas mãos atarrachadas ao pescoço, a poucos centímetros do rosto. Era mesmo possível sentir o rosnar e o bafo raivoso aquecendo o rosto judiado pelo frio da manhã. O cão, por ser verdadeiramente grande (uma mescla de Rottweiler, Dog Alemão e Fila Brasileiro), mesmo suspenso no ar, às vezes conseguia, se rebatendo, tocar os pés no chão, chegando a quase derrubar Agenor ao solo. Ele sabia que isso seria sua passagem de encontro aos gatos. Afinal, nunca fora um santo. O que o fazia erguer o bicho cada vez mais alto. E se via em um conflito:

                _  Se eu soltá-lo, ele certamente me matará. Mesmo que eu chegue à roça não terei como pegar a enxada para me defender. Só me resta chegar à casa do Tõe.

                Sábia decisão, Antônio era homem sisudo, de poucas palavras, quase tão forte quanto o irmão.

                Mesmo estando a casa a nada menos que uma légua, o destemido seguiu a passos rápidos a segurar firme seu único medo, com as mãos cada vez mais firmes e molhadas pela baba do animal apocalíptico animal. Diante do terreirão de café, se sentiu aliviado:

                Ô, Tõe, Ô, Tõe, venha aqui rápido. Pegue um pau ou uma corda para dar um jeito nesse cachorro.

                Antônio, apenas olhando pela janela de pau, com cara de poucos amigos:

                _ Largue de ser besta, Agenor, olhe a língua para fora, e a rouxidão. Esse bicho está morto, seu ignorante.

                O amor entre irmãos também e caso de lindas histórias.

                Prof. Reinaldo Santos

A chuva de Santo Antônio

Pelos meados da década de 1950, houve uma medonha seca pelas regiões profundas de Minas Gerais, narrava o Agenor. Contava-se para mais de 6 meses sem sequer uma chuva molha-bobo. O vento levantava a poeira fazendo caracóis que tocavam os céus. As margens do velho rio Piranga trincavam à medida que suas águas regrediam. Ao andar pelas estradas de terra, via-se a paisagem ao longe tremer diante das vistas devido ao calor incomum para uma região cercada de verde e nascentes.

Embora escassos, a fazendo do seu Nico era a que mais gerava empregos, e a que mais sentia tais efeitos, pois não havendo possibilidade de preparar a terra para plantio, também não se contratava. Seu proprietário era, não sem motivo, devoto de Santo Antônio, padroeiro de sua cidade.

Segundo Agenor, sua fé foi testada quando, por motivo da finalização da nova Matriz do santo, alguns paroquianos o procuraram para pedir a doação de uma árvore frondosa, e de boa madeira, que ficava na entrada de sua fazenda para que dela fossem feitos os bancos da nova igreja. Como era de se imaginar, tal pedido foi de pronto negado. Mas após uma noite de ventania, a árvore amanheceu no chão. Dela foram feitos todos os bancos da igreja. Sobre a base dessa árvore foi feita uma pequena gruta com a imagem de Santo Antônio.

Pois bem, a história de Nico e Antônio viriam a se cruzar novamente por virtude da citada estiagem. O fazendeiro, de grandes posses e de bom coração, não se contentava com a ausência do trabalho que poderia ser ofertado dentro de suas terras, nem mesmo com a falta do verde na paisagem e os animais com costelas visíveis marchando tristes pelos pastos secos.

Fiel, dentro da matriz, após uma missa matinal de domingo, conversava com Santo Antônio, ajoelhado em um dos bancos originados de sua antiga árvore. Em pensamento, pedia ao santo com todo coração que enviasse chuva, embasava os motivos do pedido, deixava claro que não era apenas em causa própria que advogava. Ao final da oração-conversa, prometeu dar a Antônio a quantia generosa de M$ 150,00 (Cento e Cinquenta Mirreis). Saiu da matriz e dias se passaram.

E nesses dias aconteceu algo. Fato que, devido às baixas condições sanitárias, fracas campanhas de imunização, pouco acompanhamento pré-natal, era comum acontecimento nos confins do Brasil. Havia falecido uma criança logo após o nascimento. Por lá, eles chamavam de anjos, existiam até mesmo espaços separados para sepultarem os anjinhos. Embora comum, a comoção era única em toda a região. Como de costume, foi lá também o Nico. Ao ver o anjinho, lembrou-se da promessa ao Santo. Embora houvesse prometido, ainda não sabia como pagar a quantia proposta.

Disfarçadamente, mexeu nos bolsos, encontrou M$ 200,00 (Duzentos Mirreis). Aproximou-se do pequeno caixão, estando sozinho, tocou o pequeno corpo e rezou. Sem que alguém visse, enfiou o dinheiro por dentro do caixãozinho, ao lado do braço da criança: “Diga a Santo Antônio que esse é o valor prometido. Lembre-o que tenho troco de M$ 50,00”. Virou-se, colocando o chapéu, tomou o cavalo e foi-se. Novamente os dias se passaram.

Se passaram. E choveu. Choveu forte nas terras de Nico. Choveu em toda a região. A poeira, depois de deixar seu cheiro, foi lavada, no lugar dela veio o barro nas estradas, o verde começou a pintar novamente as vistas pelos campos. As nascentes novamente jorravam, os pássaros festejavam e o velho Piranga novamente ficou pleno. A felicidade havia retornado.

E como deveria, o tempo continuou a passar. Passava e trazer consigo a chuva sem parar. Era para mais de 23 dias com a chuva em um ritmo constante. O rio que estava seco, agora havia desaparecido por ter avançado sobre os campos de feijão, formando somente uma linha de água no horizonte e já se aproximava das casas. Os currais dos animais precisaram ser trocados para partes mais altas. Nas estradas nem os carros de bois andavam mais. Algumas delas estavam intransponíveis por quedas de barrancos.

A preocupação voltara à cabeça do fazendeiro, agora por motivo diverso. O medo de as cheias continuarem o tomava por completo, quase não dormia e passava o tempo analisando os perigos, socorrendo animais e controlando os níveis das águas.

Com medo, durante o pouco que dormiu, lhe aparecera em sonho, um homem branco com vestimenta marrom, carregava nos braços uma criança, tinha o mesmo rosto do anjinho que vira em um caixão. Aproximou-se o homem e disse em tom claro:

_ O troco de M$ 50,00 que devo, vou mandar tudo em chuva.

Os que estavam dentro da casa, contavam que Nico acordou Gritando:

_ Não quero troco, pelo amor de Deus! Era brincadeira. Pode ficar com tudo.

Certamente foi por um acaso, mas a chuva cessou naquele exato momento.

Se não houver caridade, nada seremos

Agenor, embora fosse homem de pouca formação escolar, era muito conhecido e sempre queriam-no ouvi-lo por onde passava. E tal qual seu ídolo maior, ninguém menos que Jesus Cristo, sempre falava em parábolas. Muitas vezes instauravam-se as dúvidas se suas histórias eram reflexos de suas vivências, de pessoas que conheceu ou se criação da mente, ou ainda um misto dos dois.

Pois bem, certa vez ele falava da importância de se doar, às vezes se doar mais que receber, e nunca apenas esperar o que poderia vir como doação. (Dizia ele sobre pessoas ingratas: só querem o “venha a nós” e esquecem de “o vosso reino”). Nessa ocasião, sentou-se e rodeado, contou a história de uma velha que era muito astuta, esperta, fazia-se de coitada e costumeiramente terminava por receber algo por suas atuações dramáticas.

Ela era, na definição de Agenor, sovina, mão de porco, munheca de samambaia, avarenta, mão de vaca, cauila, olho grande e alguns adjetivos mais. Ganhava muito e nunca doava, tudo escondia e muitas vezes o que tinha se perdia, pois sempre guardava tudo para não oferecer nada a quem por ventura se achegasse em sua casa. Fazia-se de triste, desprovida para amolecer os corações alheios com o intuito de sempre ganhar mais. E ganhar sem necessidade verdadeira. Nas palavras da parábola, isso era algo divinamente inaceitável, que nem mesmo o tinhoso aprovava.

E olha que pelos interiores das Minas Gerais, durante o século passado, o encardido era algo de que muito se tinha medo, imagine-se então como era degradante fazer algo que o costa-oca achava inviável.

Pois bem, tal senhora vivia em um espaço cedido por um fazendeiro, bem no final de uma extensa pradaria. Por vezes o tal fazendeiro por lá passava, visto a dona morar sozinha. Invariavelmente, durante as visitas ela escondia tudo que tinha, mas no caso dele, oferecia almoço, mas reclamava estar faltando algo. Certa vez ao chegar na casa, a velha já grita:

_ Vamos comer arroz branco comigo, filho!

_ Por que arroz branco, dona Maria?

_ É que falta o feijão, e o cobre para comprar está difícil.

Comovido, o senhor das terras disse:

_ Passe então na sede, temos feijão lá e a daremos o que precisa.

Mal o fazendeiro saía, tomava ela o rumo da sede com o bornal ao lado. Um dia, faltava feijão, no outro, café, arroz… e por aí afora. A verdade é que estava tudo amoitado, quando ela via ao longe alguém se aproximar.

Como comentado na parábola, nem mesmo o coisa-ruim concordava. Assim um dia, ele, aquele que todos evitavam falar o nome, puto da vida, resolveu dar uma lição na espertinha.

Era comum, na época, matarem um porco e as partes serem divididas, vendidas entre várias famílias, pois devido à ausência de refrigeração, era necessário recorrer a antigas técnicas de preservação limitada. Como é o caso do ressecamento, da fritura e conserva em banha, etc. Pois bem, ela tinha sido convidada para uma dessas partilhas e interessou-se em uma parte dos torresmos do porco. Recebida sua parte, passou a semana a ressecá-los, fritá-los. Terminados os trabalhos, uma parte foi para a lata com banha, outra para um saco, por lá conhecido como saco de Mauá.

Instintivamente, prevendo alguma visita, escondeu-os cuidadosamente entre os caibros e linha do telhado da casa. Tudo seguro, os dias se passaram.

Era início de janeiro, época em que as congadeiros saíam pelos confins, com as folias de reis. As comitivas visitavam casas com as cantorias próprias para a ocasião, e pediam, água, comida e doações relembrando a jornada dos Santos Reis que foram ao encontro do Menino Jesus. Por uma casualidade, pela primeira vez apareceram naquela pradaria.

Sob os olhos atentos da quieta senhora, fizeram a tradicional festa, se apresentaram, sorriram-se, depois procuraram sombra e esperavam por água e se possível a comida. Como nada lhes foi dito, um deles questionou se havia comida para ser oferecida, visto a longa caminhada.

Já acostumada a negar com convincentes histórias, ela desceu tranquila o primeiro degrau da porta em direção ao congado, quando uma voz de dentro da casa disse em alto, forte e límpido som:

_ Podem entrar, tem comida para todos.

Olharam assustados para dentro da casa e viram o sete-peles sentado sobre a linha de madeira do telhado, e jogando no chão as latas e sacos de torresmos.

_Entrem, comam, bebam e se fartem.

O grupo de músicos todos se foram em trote forte e sumiram-se nas linhas do prado. A velha que lá ficou, não se teve mais notícias dela. A casa ficou aberta e com os sacos e latas jogadas no chão. E até então, quem quisesse poderia se aventurar e visitar a casa que, mesmo em ruínas, ainda está com o saco e as latas jogadas no chão. Garantia o Agenor.

O ceifador

Lá pelos idos do século XX, pelos profundos rincões das Minas Gerais, de pomposos proprietários, muitas nababescas fazendas existiam. Ainda pouco divididas com herdeiros, tais propriedades tinham dimensões, muitas vezes, desconhecidas pelos próprios donos. Havia também, dadas as proporções, muitos peões, carreiros, boiadeiros e demais nomenclaturas do gênero. Tudo em generosos números.

Era comum em tais épocas que grupos desses funcionários se ajuntassem para fazer pequenas comitivas pelos interiores da fazenda. Tais feitas podiam durar semanas ou meses. Tinham como missão reconhecer limites territoriais, resgatar animais desgarrados que por vezes se perdiam mata adentro e acabavam até procriando nos espaços afastados da sede.

Em uma comitiva, foram designados amigos já habituados nessa lida, entre eles estava o Agenor. Dessa vez sairiam em busca de um peão da fazenda que havia se perdido de uma comitiva que chegara no dia anterior, após trinta dias de missão, para tal feita, foram escalados os mais experientes. Como era serviço sem data prevista, eles levavam de tudo em tralhas carregas por mulas e pequenos cavalos, os mais mansos da fazenda. Tinham de farinha a e rapadura a galinhas vivas para a temporada.

Na reunião de saída, chegaram à conclusão que o jovem peão deveria ter se distraído e passado para outros sentidos da mata, ainda pouco conhecido por eles. Assim para lá rumariam. Era trabalho duro, pois tal quais os bandeirantes os caminhos precisavam ser abertos por eles mata adentro.

No primeiro dia, antes do sol chegar à metade do céu, já haviam encontrado uma novilha que havia se distanciado, fizerem um cercado, guardaram-na com alimento e água para ser resgatada na volta. Ao pôr do sol, viram-se diante de um imenso jatobá-do-serrado com uma copa bem definida.

_ Agenor, não acha por bem já montar por cá nosso acampamento antes que caia a noite? Questionou ao mais experiente, o Eurico.

Agenor era homem que andava no escuro, era conhecido por essa habilidade, naquele tempo e por aquelas bandas, onde não se via vestígio de luz elétrica nos céus por quilômetros circunferentes era predicado apreciado por empregadores das fazendas. Por lá, algumas noites eram pretas, literalmente. Em épocas que faltava a lua no céu ou em dias nublados e não se via um palmo diante do nariz, ele parecia caminhar por coordenadas, igual a um morcego.

Mesmo assim, por estar com parceiros e tralhas, resolveu concordar:

_Deveras, desfaçam as tralhas dos animais e vamos acampar por aqui.

                Mal começaram as tarefas, um deles, o Heitor, demonstrando visível cansaço, deitou-se de barriga para cima debaixo do jatobazeiro, relaxou, fechou os olhos, sentiu a brisa tocar seu rosto e os raios do poente lhe acariciarem a face através dos galhos. Tão logo os abriu assustou os companheiros ao gritar estarrecido:

                _ Valha-nos Jesus, Nossa Senhora, isso não é coisa de Deus.

Assustados, os companheiros não ouviram mais dele palavra alguma, apenas o viram, esbranquiçado, apontar para a copa da árvore. De pé, o poente ofuscava os olhos que buscavam inquietantes algo, mas puderam ver os pés de um homem pendurado na árvore.

_ Ele se matou?

_ Evidente que sim, ele estava sozinho.

_ Nossa comitiva terminou mais cedo que esperávamos_ disse Agenor em tom conciliador.

Por mais que tal possibilidade fosse prevista para todos, nenhum havia se preparado para tal ou sabiam como proceder diante do que viam. Rodearam a árvore, analisaram e perceberem que o pobre homem estava morto há dias. Já começara a se decompor.

_ Não há como levarmos de volta, vamos enterrá-lo aqui.

_ Aqui mesmo?

_Sim.

_ Como o desceremos de lá?

Para as dúvidas, uma resposta simples:

Não o desceremos, vamos cavar a cova debaixo dele, depois subimos e cortamos a corda, resumiu o Agenor.

_ Eu não subo lá.

_ Eu muito menos _ discutiam Heitor e Eurico.

                Incrédulo com o que via, balançando a cabeça, Agenor diz, quase em tom de oração:

                _ Vamos cavar, depois resolvemos isso.

                Como era alta a copa, precisaram furar uma cova extensa, bem larga. Levou tempo. Ao terminarem a noite se anunciava. Dois deles, resmungando algo incompreensível, sentaram-se sobre os cabos das enxadas, enquanto Agenor tomou em suas mãos uma foice, afastou-se, cravou-a ao solo, apoiou-se em seu cabo, ajoelhou e apostrofou:

                _ Senhor Deus, embora não autorizado e indigno de ser seu emissário, não podendo encomendar a ti a alma desse pobre desgraçado, que nem mesmo conheço o nome, suplico que o receba em sua morada, dai-lhe a paz que na terra para ele faltara. Recebe teu filho, senhor, mesmo que a fé lhe tenha andado distante, que a sua glória tenha lhe faltado, agora à morada eterna possa regressar, Amém.

                Levantou-se, olhou para o alto e lançou sua foice rodando em direção à corda. Atônitos os companheiros viram o corpo cair dentro do buraco no solo.

                _ Enterrem-no. Vou procurar minha foice. Disse frio como a noite que chegava.

Enquanto cuidavam de fechar o buraco, procurou, procurou, mas a foice não foi mais vista. Era uma foice de estimação cunhada na bigorna e presenteada por seu padrinho, já havia enjeitado M$ 500,00 (quinhentos Mirréis) na mesma tão grande era seu apreço por ela. Não demonstrando sua decepção questionou aos companheiros:

                _Pronto? Nossa missão aqui terminou, vamos embora, mesmo durante à noite, não é bom nem prudente que permaneçamos aqui.

                Rumaram noite adentro, pela escuridão, Agenor ditava a marcha e a peonada atrás levando toda a tralha e puxando a novilha encontrada. Durante o percurso, por toda a noite, não disseram uma só palavra. No silêncio, velavam a alma daquele infeliz que sequer sabiam o nome ou conheceram sua vida.

                Pela manhã, animais postos em seus devidos lugares, rumaram, cada um em direção a seus destinos. Ao chegar em casa, Agenor já encontrou sua mãe no trato das galinhas no terreiro.

                _Sua bênção, mãe.

                _Deus te abençoe, voltou rápido dessa vez.

                _Sim, mamãe, conseguimos terminar nosso trabalho ontem.

                _ Ah sim, seu amigo falou-me, passou aqui logo cedo.

                Sem compreender do que lhe falava a mãe, a questiona, arrepiado:

                _Que amigo é esse, mãe.

                _Não sei, nunca o tinha visto, um rapaz jovem, elegante e muito bem vestido. Disse que se chamava “Azeitador” ou coisa assim, que você o ajudou em uma empreitada e veio devolver a sua foice.

                Ao lado da porta, próximo à bancada do fogão, viu sua foice escorada. Olhou-a por três segundos e perguntou:

                _ Mãe, já tem café pronto?

Prof. Reinaldo Santos

Heroes

“Se você encontrar um homem sábio, madrugue para visitá-lo, e que seu pé gaste a soleira da sua porta.” Segundo Adão Carlos, pensador e poeta nova-serranense, tal fragmento vem do Eclesiástico 6:36. É bem verdade tal preceito. E Agenor, mesmo sendo sábio de nascimento, também andava à luz do citado ensinamento. Mas um imbróglio sempre surgia quando se fazia necessário receber a sabedoria emanada do famigerado irmão, o Tõe.

A verdade era que os dois se amavam, e eram quase idênticos em sabedoria e liderança. E sabe-se, inclusive por conhecimentos bíblico-históricos, que qualquer tipo de acúmulo, seja intelectual, hierárquico ou de posses, entre pessoas muito próximas, gera sentimentos antagônicos. Sim, é fato. Aconteceu com Caim e Abel, Adonias e Salomão, também a uma dupla de administradores do Centro-Oeste de Minas, cujos nomes vagam à memória.

Um dos fatos que ilustram tal antagonismo ocorreu há algumas décadas. Estava Agenor em sua cidadezinha, onde o mato é ralo e rio faz a curva, acontecia no momento o tradicional futebol de domingo à tarde. Diziam que a semana não se iniciava naquelas terras antes de acontecer um jogo entre times da região. A agenda de espera era disputadíssima, o jogo era, literalmente de botinadores, os jogadores, em sua maioria lavradores, usavam botinas durante a partida. Levantavam a poeira vermelha no campo de cascalho. Agenor era atacante imprescindível do time da comunidade do Galo, jogador que entrava em campo para decidir, segundo ele mesmo. Houvesse naquela cidade registros oficiais de suas jogadas, Pelé e companhia haveriam de reinventar o futebol.

 Era quase final de primeiro tempo, o astro do interior acabara de marcar seu quarto gol, para fazer espasmos no público feminino, que de costume o acompanhava. Nunca se sabia ao certo se tanto delírio era fruto de sua genialidade futebolística, ou de seus raros olhos verdes, contrastantes com a pele morena. Os tantos gritos de ovação misturaram-se aos desencontrados gritos vindos do Rio São Miguel, que fazia curva em torno do campo.

_ O Soares não saiu da água, acudam!

_ Ele deve ter saído do outro lado.

_ Ele vai morrer. Entrem lá!

Sabia-se que alguém, naquele momento, havia enfrentado as correntezas que cortavam a cidade. Correntezas que perdoavam a poucos, e a muitos levavam. Alguns jamais encontrados.

Os curiosos rapidamente se achegaram na esperança de dar vistas ao vivente em alguma parte do rio, nada. Entre os poucos a desafiar o rio, e ainda pisando sobre a terra, estava o Agenor, único presente. Não foi necessária uma palavra sequer para o exímio nadador entender que era ele a única esperança de reaver o Soares com vida.

Rapidamente, havia se desfeito das roupas e, apenas de cueca, resolveu vasculhar o rio no sentido contrário à correnteza. Ele sempre dizia que era o meio mais eficiente de se buscar alguém em rios; estar sempre contrário à água para não se deixar ir a seu favor. Parecia suicídio, mas não para quem o conhecia e já o vira nadar.  

Era uma cena que estava prestes a marcar a memória da pequena cidade. Algo definido pelos presentes como sobre-humano. A cada braçada eram cinco metros rio acima e fazendo curva. Dado a largura do São Miguel, foram cinco subidas para varrer os prováveis pontos de se achar o ser. Nenhuma delas alcançou o objetivo. Saindo da água, ajeitando a cueca, disse certo de suas palavras:

_ Ele já se foi

Após a sentença, embora decepcionados, todos o olhavam com admiração. Agenor também ficou decepcionado, isto ao ouvir de um parente da vítima o que se deveria fazer para encontrar o corpo.

_ Vão buscar o Tõe, conta-se que ele acha qualquer defunto na água.

Era bem verdade. Antônio era versado em técnicas de busca pouco conhecidas em terras brasileiras, chegadas ao mundo novo com alguns dos descobridores, ficando restritas a raras sesmarias de Rondônia. Embora não acatasse a ideia, Agenor não poderia se opor a ela. Sua alçada era salvamento de pessoas vivas. Sentou-se e ficou a observar o raivoso curso do rio. No fundo, sentia que assistiria a uma cena de fé, assustadora e comovente.

Antônio apareceu em minutos, homem de poucas palavras, chegou com seus aparatos medievais, ajoelhou-se ao solo, rezou em apóstrofe. Apanhou no fundo do embornal uma pequena cuia, colocando-a ao chão, tomou uma vela benta (daquelas da sexta-feira da paixão) e a colocou acesa no centro da cuia.

A esta altura já se tinha noção do que ocorreria, mas se duvidava da eficiência do fato, dado o estado característico do rio. A cuia, posta na margem, logo já havia alcançado a correnteza, sobre a qual, inexplicavelmente, desceu lenta e sem extinguir a chama. Passou a curva, a parte mais inacreditável, seguiu o curso acompanhada de olhos silenciosos e atarantados, até, finalmente, parar bem no meio do leito, mesmo sem nada para ampará-la. Susto e silêncio.

Antônio, como se ali estivesse sozinho, pula de pé e desaparece nas turvas e profundas águas. Agenor aproxima-se rapidamente da margem, ele sabe que não é necessário, mas tem vontade de acompanhar o irmão. Durante trinta segundos, nenhuma respiração de quem presenciava era ouvida. Até que algumas bolhas precedem a emersão de Tõe, surge sem aparentar cansaço, mas com as duas mãos se movendo livremente, sem sinal do defundo. Apreensão. Ao fundo a vela, ainda parada, mas agora apagada. Nadando até a margem, se arrasta pelas pedras até surgirem suas pernas atreladas ao falecido. Enquanto Soares era tomado nos braços de alguns presentes, Antônio já estava com o embornal ao ombro. E se virando para sair (sutil como um tiro de canhão), mesmo sabendo que seria incompreendido, resmunga:

_ Begginers!

Português, Javanês, Caipirês e Inglês. O antagonismo expresso por Agenor se justificava, Além de todo o exposto, Antônio era poliglota.

Prof. Reinaldo Santos

O dia do bem

Fui vacinado com a vacina contra a COVID, já há um tempo torcendo que a imunização avançasse idades abaixo, feliz, eu recebia a comunicação via whatsapp através do meu irmão. O agendamento estava disponível para as pessoas a partir de 40 anos. Não hesitei, dentro do carro estacionado na rua, iniciei imediatamente o agendamento do processo.

Por uns segundos a mente questionava se, de fato eu deveria estar fazendo tal, afinal há pouco tempo eu via a corrida para imunização dos primeiros grupos prioritários, na mente ficou gravada a informação que deveriam ser vacinados os idosos. E agora era a minha vez? Eu tenho mesmo idade para isso? Uma leve conferida na informação: “pessoas a partir de 40”, sem comorbidades podem ser vacinadas. Outra conferência, eu tenho mesmo 40 anos?

De fato, tudo confere, eu me encaixava. Certo de não estar infringindo nenhuma norma ou passando a vez de algum outro, finalizei o processo, a confirmação ao final foi clara, data, local e documentos a serem apresentados. Print da tela para garantir, vai que uma falha ocorre no sistema deles? Não vou atrasar esse cronograma. Com a data em mente, 10 de julho, chego em casa anunciando para a esposa o fato:

_ Dentro de um mês já poderei ser vacinado, para quem esperava que fosse feita em três meses, está ótimo. Em uma fração de segundos ela questiona:

_ Dentro de um mês? Essa data é no sábado.

_ Na verdade, é dia 10, meu bem, mas é de JULHO (frisando a diferença no final do nome do mês).

Certamente você já percebeu que minha mente ainda estava no mês de junho. Ao que ela prontamente lembrou-me que já estávamos no mês de julho e que a data era sábado próximo. Acho que nunca fiquei feliz por tomar uma vacina assim.

Pois bem, dados tratos à memória, certifiquei-me dos documentos, e solicitei ser acordado bem cedo naquele dia, visto que avançaria noite adentro trabalhando.

Acordado e bem disposto, uma hora antes estacionava o carro próximo ao PSF São Sebastião, que tinha outro nome, mas assim estava escrito no agendamento. Antes do posto abrir em torno de 30 pessoas na fila. Durante período que ali esperei, o que foi rápido, percebia o clima harmônico entre as pessoas ali na espera. Diferentemente do momento polarizado e discussões vagas, sem sentido e retrógradas, o ambiente era belo de se ver, clima de comunhão, sorrisos, brincadeiras. Pessoas que estavam ali com esperanças renovadas de retomarem suas vidas, seus projetos. Em nada parecia ser uma fila para imunização contra um vírus que veio de longe, de alguma forma um erro alheio aos brasileiros, e aqui as pessoas pagavam a conta por tal. O objetivo em comum parecia fazer sentido visível na vida das pessoas naquele momento.

PSF aberto, às 8h20 eu já entregava à conferência os documentos. Tal qual as pessoas nas filas, os profissionais de saúde, também pareciam comungar sua felicidade entre si e com aqueles que ali chegavam. Fui recebido por um servidor sorridente, de óculos circulares, que assim como os demais servidores, recebia e conferia, com felicidade os documentos apresentados. Não perdeu a chance de me dar uma bronca: “Que cartão mais vazio é esse, meu amigo? ”. Orientou-me, ainda em tom lúdico, a voltar dentro de 15 dias para tomar outras vacinas tão importantes quanto a que eu buscava.

A partir dali os demais servidores fizeram jus ao termo servir. Diversamente daquilo que temos em mente acerca do serviço público, não pareciam estar ali por uma mera formalidade ou obrigação do ofício.

Pude ver mais, era como se professassem uma verdadeira fé no ali faziam acontecer.  Para eles parecia estar valendo mais a lei da abundância, quanto mais se compartilha, mais se busca para outrem o que se busca para si mesmo, mais se veem multiplicas as benesses.

A picadinha, anunciada cuidadosamente pela enfermeira, fez-me, utopicamente,  pensar que mesmo diante do que se possa ser questionado em nossos tempos, o mundo pode ter cura.

Prof. Reinaldo Santos.

Eso no existe

A nossa boa (nem tão boa assim) e velha política tupiniquim sempre nos surpreende, para bem ou para mal, isso é comum e todos já se acostumaram. O que é um erro. No entanto, por vezes nos surpreende de forma neutra, nem bom, nem ruim, mas de forma curiosa. Como o caso da deputada Joice Hasselmann que apareceu com múltiplos e misteriosos hematomas.

Nada de novo, não fosse o fato da ausência de justificativa para tais ferimentos por parte da própria. Pois bem, tal seria um prato cheio para que se levantassem as mais variadas possibilidades. Embora eu mesmo tenha ouvido poucas: carro batido, briga com o marido, nesse caso, ela mesma disse que seria mais fácil ela baixar o cacete nele que o contrário. Acredito que pouco se especulou sobre o caso devido aos posicionamentos de direita e esquerda, essas coisas. Quem é da turma oposta evita falar sobre pena de ser covarde, insensível e usar qualquer motivo para o ataque, quem é da situação, bom, certamente acha melhor evitar. A verdade é que, no caso dela, eu não saiba dizer se é de direita, esquerda ou ao lado.

Pois bem, isento que sou, não preciso de meios caminhos. Embora há algum tempo eu tenha lido em um grupo de Whatsapp bem popular, que os isentões têm o lugar garantido no reino de satã. Não lembro quem cunhou a teoria. Mesmo correndo tal risco, prefiro expor o pensamento acerca de tal fato à luz da isenção.

O interessante desse caso é não ser um fato raro. Os mais experientes no mundo político lembrarão que também o ex-deputado Roberto Jefferson, quando pivô do mensalão, apareceu na câmara com um tremendo olho roxo. No caso dele, não acreditaram foi na justificativa do mesmo: “caiu um armário sobre mim.” Diziam à época, que era conversa de quem apanhava da mulher em casa. Também Anthony Garotinho, ex-governador do RJ, durante sua estadia na pensão dos inocentes, apareceu com roxos pelo corpo, alegando ter sido espancado. Por sua vez, foi acusado de autolesão em busca de benefícios. Na justiça, Dias Toffoli também apareceu com marcas no rosto, mas sem questionamentos, informou ser tratamento para uma lesão em decorrência de um acidente doméstico.

Já devem imaginar que estou, a esse ponto, questionando o que diz a nobre deputada, quando desconhece a causa do ocorrido consigo. Ledo engano, maldosos leitores. Não sei quanto a vocês, mas eu acredito nela, sim, verdade. Eu mesmo conheci, na minha infância, um vivente que vez ou outra, depois de ir dormir na cama quentinha e bem arrumada, acordava nu, deitado na calçada. Mesmo sendo adepto de uma água destilada, sempre garantia não ter feito uso da mesma. Lembro-me também de um caso que minha mãe contava, de uma prima ou parentesco nesse nível, que acordava durante a madrugada, se aprontava, pegava o saco de milho, colocava nas costas e partia rumo ao engenho para fabricar fubá. Aqui um caso claro de sonambulismo.

Bem que tal caso pode ser o mesmo da Joice. Sim, imaginem se ela tomou algumas taças de espumante a mais (no caso dela, espumante, pessoa fina) saiu e num bar qualquer topou com o Ciro e por deslize o chamou de Coronel? Bem que poderia ter tentado tomar a garrava do seu Luiz. Ou quem sabe ainda em outro bar, topou o Messias e na empolgação, chamou-o de estuprador ou de corno? Em qualquer dessas hipóteses teria tomado algumas pancadas de direita e esquerda.

Mas o mais plausível para mim, é uma história também dos anos 1990, em que um suposto ufólogo, chamado Urandir Fernandes (que tinha a cara do Aécio Neves) tomava o tempo de quem não tinha internet (ainda não existia, na verdade) naqueles programas da tarde, explicando coisas e teorias sobre E.T‘S e seus planos para a humanidade. Entre as histórias que contava (a maioria para boi dormir) havia alguns eventos de abdução. Os seres, que segundo ele, eram verdes, baixinhos e muito evoluídos em conhecimento, abduziam as pessoas e faziam experimentos; abriam, cortavam, implantavam chips e depois devolviam a seus devidos lugares. Ao voltarem os humanos ficavam alheios a tudo, somente o Urandir sabia sobre isso.

Há poucos anos vi em um programa humorístico ressurgir o tal ufólogo. Dessa vez ele apresentava, no meio de um mato, o ET Bilu. Ser que somente ele conhecia e falava escondido atrás de um arbusto. O ET Bilu estava sozinho na terra e dizia que tinha mais de quatro mil anos. Pedia as pessoas para buscarem conhecimento.

Está aí uma possível explicação, já que o ET estava na terra, nem mesmo de abdução ele precisaria, teria feito o rapto na maior tranquilidade. Nem sei de qual planeta seria o Bilu, mas se for mesmo ele o responsável, explicaria boa parte das coisas lunáticas que presenciamos na terra.

Prof. Reinaldo Santos

Bendita seja a narrativa, a palavra

Os tempos de polarização, acirrados imbróglios políticos, as tensões pandêmicas nos trouxeram uma CPI, a da COVID, mais visível, discutida e questionada que as demais, tal CPI nos evidenciou um termo comum usado ora lá, ora cá, o termo “narrativa”. Tristemente colocado em contextos nada gloriosos, diferentemente da linha histórica do vocábulo.

Narrativa, somente para lembrar o que nos diziam o tio e a tia, durante o período escolar, basicamente, é o desenrolar de uma história. Essa com um transcorrer temporal, início, auge e fim. Isso é a boa e verdadeira narrativa. É naturalmente saber harmonizar o narrador, personagem, tempo, espaço e enredo. Longe do didatismo, é palavra bela, sagrada, instrumento de pessoas das letras e poetas.

Poetas que tristemente devem contemplar a palavra “narrativa” ganhar cada vez mais a pecha de inverdades dentro de acusações recíprocas de entes políticos. A CPI, em seu enveredamento, e tudo que a ela tange, vem usando à exaustão o citado termo como sinônimo de uma mentira criada pelo lado oposto. Naturalmente se associa que alguém ao criar uma mentira para benefício próprio ou de outrem esteja “cometendo” uma narrativa. Um pecado linguístico contra o verbete.

Há alguns meses, ao se falar em narrativas, as associações seriam dirigidas de forma às epopeias de Luis Vaz de Camões, às histórias de Monteiro Lobato, às inconfundíveis narrações de Machado de Assis, entre outras. Lembremos que também a belíssima oração eucarística feita pelo padre antes da eucaristia católica, que relembra as ações e palavras de Cristo, do início ao fim, durante sua última ceia com seu apostolado, é uma perfeita narração. Estaríamos então manchando a memória dessa palavra?

Por ironia, o tipo de texto usado por essência quando se faz necessário convencer um interlocutor, provar algo, mesmo que não seja verdade, é outro; o argumentativo. Caso a tendência permaneça e evolua ainda mais essa carga semântica negativa sobre tal palavra, ainda veremos discussões como as que ocorrem em câmaras pelo país afora com novos formatos:

_ Desculpe, mas vossa excelência mente!

_ Quem mente é vossa excelência, com sua narrativa.

_ Narrativa, não, você é que é um narrador.

_ Eu exijo respeito, narrador é mãe de vossa excelência.

Ó, destino indigno e vil! Diria em apóstrofe, Castro Alves. Como poderia a palavra que representa a glória de tantos, tornar-se uma ofensa? Pensariam e se rebateriam em seus túmulos grandes narradores da Literatura e História brasileiras. Outros tantos regozijariam-se direto do além: Ainda bem que não mais vivemos para presenciar tal pataquada.